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Submitted by NUNO.CARVALHO@EDP.PT on
Manuel Botelho (Lisboa, 1950) entrevistado por Filipa Lowndes Vicente no maat a 10 de junho de 2022, dia da realização do mural "48 artistas, 48 anos de liberdade"

Participação no mural do maat em 2022

 

Ana Manta Botelho e Manuel Botelho 2022Ana Manta Botelho e Manuel Botelho no painel "48 artistas, 48 anos de liberdade", maat, Lisboa, 10 junho 2022.

Joana Manta Botelho e Manuel Botelho 1976
Joana Manta Botelho e Manuel Botelho, 1976.

 João Abel Manta 1 de Maio de 1974 1974
João Abel Manta, "1 de Maio de 1974", 1974.

Para a minha participação neste mural, decidi fazer uma coisa muito particular: uma homenagem a João Abel Manta. Na realidade, ele foi convidado a participar, mas já não está em condições; tem 96 anos e encontra-se muito debilitado. João Abel Manta é uma figura incontornável, histórica. Criou imagens que nunca iremos esquecer, antes e depois do 25 de Abril. No final dos anos de 1960, já estava a fazê-las e continuou depois do 25 de abril, diversificando ainda mais o teor das imagens e o léxico gráfico. E eu não poderia deixar de fazer-lhe aqui uma homenagem. Ainda por cima há laços de família – não que isso verdadeiramente importe neste caso, pois a minha homenagem seria devida em qualquer circunstância –, mas não posso deixar de lembrar que ele foi meu sogro. As minhas filhas Joana e Ana são suas netas. Eu fui casado com a Isabel Manta, sua filha, e na altura do painel inicial, de 1974, a minha filha mais velha estava para nascer; a gravidez ia bastante avançada e a Joana nasceu a 22 de setembro.

É muito engraçado, porque a imagem que eu agora selecionei também tem uma carga simbólica pessoal. Para além de toda a ressonância coletiva desse tempo de esperança e otimismo, há aqui uma dimensão pessoal muito significativa. Não sou eu quem figura neste desenho, mas podia ser. Nunca tive um bigode assim, mas esta é a minha geração. Sou desta idade, tive filhos nesta altura, vi-os nascer!

O 10 de Junho de 1974 na Galeria de Belém

Sá Nogueira e João Abel Manta - Painel do Mercado do Povo 1974 Sá Nogueira e João Abel Manta - Painel do Mercado do Povo - 1974
Sá Nogueira e João Abel Manta a trabalhar no "Painel do Mercado do Povo", 10 junho de 1974.

No dia 10 de junho de 1974, fui ver o que estava a acontecer na Galeria de Arte Moderna, em Belém. Sabia que o João Abel Manta e o Rolando Sá Nogueira estavam a participar. Como seria de prever, encontrei-os lado a lado. Eram grandes amigos. Para que se perceba do que falo, direi apenas que o Rolando jantou em casa do João Abel todos os sábados durante décadas e eu estive presente várias vezes. Ele não guiava, e em muitas ocasiões fui eu quem o levou a casa depois de jantar. Para além do mais, foi meu professor na Sociedade Nacional de Belas-Artes. E ficámos amigos. O Sá Nogueira foi uma pessoa importantíssima na minha vida.

Do 10 de Junho, lembro-me do incrível ambiente de festa, com toda aquela gente a pintar e a conversar em cima dos andaimes, e cá em baixo a assistir. Eu tirei algumas fotografias, não muitas. Na altura estávamos todos com um fogo interior imenso e aquela iniciativa teve um poderoso caráter simbólico. Foi uma celebração quase em cima do acontecimento… porque ainda nem tinham passado dois meses desde a libertação. E estávamos loucos. Vocês não imaginam quanto. Nessa altura eu estudava arquitetura na ESBAL [Escola Superior de Bela-Artes de Lisboa], onde as aulas foram interrompidas devido ao frenesim imparável e às sucessivas reuniões gerais de alunos. Também trabalhava no ateliê do Tainha [Manuel Tainha, 1922–2012], onde não fazíamos praticamente mais nada senão discutir o que estava a acontecer. Era irresistível. Estávamos a viver uma coisa com a qual tínhamos sonhado toda a vida. A euforia era indescritível.

O 25 de Abril de 1974

 Manuel Botelho projeto para 48 artistas, 48 anos de liberdade 2022
Projeto de Manuel Botelho para a sua participação no painel "48 artistas, 48 anos de liberdade", junho de 2022. Citação do cartoon de João Abel Manta, "1 de Maio de 1974".

O horror de viver num país de miséria sob o jugo opressivo de uma ditadura é algo que os jovens de hoje desconhecem. Felizmente. Mas para mim… e para todos nós, mais novos e mais velhos, o 25 de abril será sempre uma referência da maior importância. No que é mais essencial, os grandes objetivos então traçados cumpriram-se. Fez-se o Serviço Nacional de Saúde, implementou-se por todo o país um verdadeiro sistema de ensino, investiu-se na habitação, na segurança social… e somos livres para lutar pelo que falta fazer. O que poderemos querer de melhor? Agora que estamos a falar desse tempo, não posso deixar de lembrar aquela nossa miragem ingénua de um mundo perfeito, de igualdade absoluta. Faz parte da essência de ser jovem ambicionar coisas assim, irrealizáveis; e alguém teria de ficar desiludido com o que ficou por fazer. Para mais, nos meses que se seguiram a Abril e depois, em 1975, houve aquelas trapalhadas políticas normais de um processo revolucionário, que é sempre uma coisa complicada. E o país fraturou-se. Mas no início estivemos todos juntos. A subir a Almirante Reis no dia 1 de maio de 1974 estava um mar de gente que se opusera ao regime de Salazar e Caetano. Não há palavras que traduzam o que então sentimos.

A imagem do João Abel que escolhi para este painel é um pouco isso, o instantâneo de um momento em que gritámos em uníssono. Depois as coisas não correram exatamente assim, mas eu não me sinto minimamente defraudado. Nem lá perto. Às vezes oiço pessoas dizer coisas estranhíssimas que para mim não fazem o menor sentido, ignorando a diferença abismal entre o que foi o nosso país até 24 de abril de 74 e o que é agora. Esta mulher com a criança aos ombros é uma imagem de otimismo e crença no futuro. Ela está aqui com o braço no ar, o punho fechado. Hoje em dia, isto é uma coisa normalíssima, mas no tempo da velha senhora não se podia fazer. As pessoas não podiam andar na rua assim, a manifestar-se; iam presas, e eram espancadas. Não era brincadeira. Não se podia escrever nada nos jornais, não se tinha direito à informação, não se tinha direito a nada. Portugal era um país subdesenvolvido. A miséria e o analfabetismo eram catastróficos. Os nossos soldados iam morrer em África numa guerra inadmissível; era uma coisa horrenda de que não se podia falar. Hoje estamos aqui a conversar sem medo de sermos presos pela PIDE, estamos a escrever e pintar imagens nas paredes do maat, livremente, estamos a escrever nos jornais e a dizer o que pensamos na televisão, estamos a lutar por aquilo em que acreditamos… e estamos a ver o mundo inteiro na Internet. Antes isto era uma tristeza que não dá para explicar, parecia que estávamos na Idade Média. Nós saímos da Idade Média no dia 25 de Abril de 1974.

Todas as imagens: cortesia de Manuel Botelho.

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