Notícia
Anastácia: a memória da escrava amordaçada

 

"Na sala de estar da minha avó, havia uma imagem da Escrava Anastácia por cima do sofá, no lado esquerdo da parede. Todas as sextas-feiras, nós colocávamos uma vela, uma flor branca, um copo de água limpa, e uma tijela de café fresco - sem açúcar. A minha avó costumava contar como Escrava Anastácia tinha sido encarcerada numa máscara, por falar palavras de emancipação durante a escravatura, e eu, dizia a minha avó, dever-me-ia sempre lembrar dela."

Esta memória de infância é partilhada por Grada Kilomba num texto intitulado A Máscara, presente no catálogo da exposição Secrets To Tell, editado no âmbito a exposição homónima.*

E é uma das peças centrais do trabalho que a artista apresenta no MAAT até 5 de fevereiro de 2018. 

 

 

Vista da exposição Secrets do Tell. | Fotografia: Bruno Lopes. 

 

Grada Kilomba memorizou a história de Anastácia, da mesma forma que memorizou o passado colonial. A máscara, descreve a artista, era "composta por uma mordaça, colocada no interior da boca, apertada entre a língua e os maxilares, e fixa por detrás da cabeça, com duas correias: uma em torno do queixo e a segunda em torno do nariz e da testa." Um instrumento que servia para evitar que os africanos em situação de escravatura comessem cana-de-açúcar ou cacau enquanto trabalhavam nas plantações, ou que ingerissem lama, uma prática então comum para cometer suicídio. 

A veracidade da existência da escrava Anastácia é discutida por vários estudiosos e existem também várias versões sobre a sua história. Uma delas,apresenta Anastácia como uma princesa banto que chegou ao Brasil em 1740 a bordo de um navio negreiro como escrava, "porém nunca aceitando essa condição, rebelou-se frequentemente contra os maus tratos e as condições de trabalho sob as quais vivia" ( in Dicionário da Escravidão Negra no Brasil, de Clóvis Moura; Editora da Universidade de São Paulo, 2004).

Descrita como uma mulher de invulgar beleza, Anastácia seria cobiçada por homens e invejada por mulheres e alvo de sistemáticos atos de violência ao longo de toda a sua vida. A máscara ter-lhe-ia sido colocada como castigo por se recusar a manter relações sexuais com um senhor, "dono" de escravos. Ou mandada colocar por uma esposa ciumenta, a pretexto de ter sido apanhada por um capataz a ingerir um bocado de açúcar, segundo outra versão.

Independentemente das versões, a história perpetuou Anastácia como um símbolo de resistência, sendo hoje considerada uma das mais importantes figuras da história da escravatura no Brasil. Símbolo de resistência contra a opressão, dá nome a vários movimentos de luta em nome da justiça social e da emancipação feminina, por exemplo. 

Anastácia é também hoje adorada como uma santa, em especial no Rio de Janeiro, onde se supõe que tenha sido sepultada. São-lhe atribuídos poderes curativos, pois diz a lenda que a escrava colocava as mãos nos doentes e os seus males desapareciam. 

* O catálogo está disponível na loja do MAAT.