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À mão livre: Obras de António Sena na Coleção de Arte Fundação EDP

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Pintura de António Sena
António Sena, Sem título, 1975, Coleção de Arte Fundação EDP © Bruno Lopes

 

A obra de António Sena (Lisboa,1941-2024) abrange a pintura e o desenho, disciplinas amplamente representadas na Coleção de Arte Fundação EDP. Mostram-se, nesta exposição, exemplos determinantes dessas práticas, com trabalhos que vão dos anos de 1960 à primeira década deste século. Assim se homenageia, no palco nacional e internacional que é a ARCOlisboa, um dos nossos mais importantes artistas, desaparecido no decorrer do ano passado.

 

A escassez ou simplificação do cromatismo, a rarefação de matéria pictórica com a frequente revelação da tela crua, aproximam as pinturas de António Sena da ideia e a prática do desenho, definindo assim a sua marcante contribuição para a arte portuguesa.

 

António Sena não praticou um desenho de representação – raros são os registos de objetos e, ainda assim, reduzidos ao esquematismo de uma sinalética de interpretação sempre ambígua. As suas obras aproximam-se principalmente do registo da escrita e do cálculo; mas de um modo, também ele, ambíguo. Letras e números que seguem de modo displicente (ou põem claramente em causa) a composição em pauta ou quadrícula ou textos densos, geralmente repetidos em séries, surgem sabotados por grafias sísmicas, sobrepostas, desordenadas, propositadamente ilegíveis.

 

Estamos perante um jogo de cifras e segredos a desvendar ou perante exercícios de intensa liberdade e prazer da escrita? António Sena conduz-nos, para além da imagem e do texto, até ao entendimento dos ritmos abstratos de preenchimento dos espaços (cheios e vazios, verticais e horizontais), criando uma espécie de prosódia visual, recuperando o gesto do desenho na base das escritas ideográficas e depois alfabéticas, mas deixando em suspenso a interpretação verbal que os justifica.

 

No conjunto das obras que apresentamos, as características referidas tornam-se evidentes. Sem título (1972), do seu período de Londres, apresenta e nomeia uma bandeira, aproximando-se da sensibilidade expressiva da Pop inglesa; sem título (1975), pintura com colagem, é pura citação de um conjunto de jornais do chamado “Verão Quente” e evoca, sem retórica, o período revolucionário. Já as obras (todas sem título, 2002) apresentadas à terceira e última edição do Prémio EDP Arte de Desenho, em 2002, que venceu, e as obras Poème sur le désastre de Lisbonne (II), da série “Les cahiers de Voltaire” (2005-2006) ou DN 1911 (2009-2011), que apresentou na sua individual na Fundação EDP (Cinzeiro 8, 2014), acentuam a dramaticidade sempre latente na sua obra: cálices sacros ou urnas cinerárias, citações integrais do poema de Voltaire sobre o terramoto de Lisboa, a inscrição, em grafia contínua de leitura quase indecifrável, e de novo nas páginas de um jornal (na data específica do nascimento de sua mãe), excertos do Livro do Desassossego de Bernardo Soares/Fernando Pessoa.

 

A mão de desenhador de António Sena cria uma tensão permanente entre as regras impostas pela linguagem e pela ortografia e o desejo de libertação face a essas regras; põe em causa o edifício do significado ensinando-nos o caminho para a liberdade significante das imagens.

 

 

João Pinharanda

Diretor, MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia

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