Datas

04 Out 2019 - 20 Abr 2020
Horas
11h - 19h
Encerra
Terças-feiras
Curadoria
Inês Grosso
Exposições
JOÃO PEDRO VALE & NUNO ALEXANDRE FERREIRA. AMA COMO A ESTRADA COMEÇA
JOÃO PEDRO VALE E NUNO ALEXANDRE FERREIRA EM FRENTE À TOUR SAINT JACQUES EM PARIS TAL COMO MÁRIO CESARINY NA CAPA DA EDIÇÃO DE 2000 DO SEU LIVRO A CIDADE QUEIMADA.

 

A 16 de setembro de 1964, Mário Cesariny dá entrada na Prisão de Fresnes, a sul de Paris, acusado de «atentado ao pudor». Os dois meses de clausura e as razões que terão levado à sua detenção permanecem envoltos em argumentos controversos e contraditórios. Na realidade, para além da sua intensa dedicação a um pequeno livro composto por uma série de relatos confessionais, desenhos e poemas-colagens, pouco se sabe sobre esse período. Da leitura desse livro, intitulado A Cidade Queimada (1965), é possível entrever, entre outros assuntos, o seu fascínio pelo jardim e Torre de Saint-Jacques no Marais, um dos maiores símbolos históricos da cidade. Uma curiosa coincidência, quando em 2018 os artistas João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira se mudaram para Paris no âmbito de uma residência artística na Cité internationale des arts deram conta que o seu apartamento ficava nas redondezas da torre gótica que figura na capa do livro acima referido, enquadrada numa icónica fotografia onde é possível ver Cesariny em primeiro plano. Logo ali, iniciam um longo processo de pesquisa em torno da vida e obra de um dos mais importantes membros do surrealismo português e uma figura incontornável do século XX, focando-se especialmente no período que passou em Fresnes, estabelecendo um paralelismo entre as novas estruturas de encarceramento, as vivências relegadas à clandestinidade e as múltiplas estratégias de transgressão, subversão e dissidência dos corpos. 

Ama como a estrada começa, é um projeto inédito produzido especialmente para o MAAT. A primeira grande apresentação da dupla numa instituição museológica, a exposição apropria o título de um poema-colagem criado por Cesariny em 1955 e articula inúmeras referências gráficas, culturais e artísticas que os artistas foram buscar ao imaginário e legado surrealista e em particular às referências do poeta português, mas também aos primeiros movimentos políticos queer e de libertação sexual. Estes são elementos que remetem para ideias de impureza e higienização, crime e castigo e a sua relação histórica com a homossexualidade e com as noções de género e cura. João Pedro e Nuno Alexandre justapõem uma amálgama de objetos e imagens na composição de uma instalação com dois andares; uma estrutura que se assemelha a uma grande colagem ou assemblagem surrealista que evoca os espaços de engate da comunidade gay — como os urinóis públicos, clubes de sexo e as saunas — mas também traz à memória as infraestruturas e equipamentos de higiene pública e sanitária como, por exemplo, urinóis, lavadouros ou celas e outros elementos da vida prisional. Estes objetos e ambientes são alusões à perpetuação e reconfiguração destas formas de restrição das liberdades, direitos e garantias individuais na sociedade contemporânea. A exposição integra ainda uma série de performances, concebidas em parceria com o coreógrafo João dos Santos Martins, que irão acontecer de forma espontânea e sem aviso prévio — vivências e ações corporais que ativam o espaço e os seus objetos, adicionando novas camadas de significados e sentidos num processo de construção permanente e em contínua transformação.