Anna Maria Maiolino, nascida em Itália, em 1942, é uma artista brasileira, país em que reside desde a década de 1960, após ter vivido e estudado na Venezuela. O seu trabalho integra a reação à abstração e ao concretismo dominantes na arte brasileira dos anos de 1950 ao tomar o corpo subjetivado, representado (desenhado, pintado, fotografado) ou performativo (fotografado, filmado em ação), e à materialidade dos suportes naturais, trabalhados mecânica ou manualmente, como eixo de criação. Essa opção estética e geracional coincide com a necessidade de tomadas de posição claras face ao contexto político da ditadura militar implantada no Brasil a partir de 1964.
A exposição, no MAAT Gallery, apresenta uma seleção de desenhos, fotos e vídeos dos anos de 1970 a 1980, capazes de nos esclarecer sobre as vias iniciais do seu trabalho, estabelecendo, ao mesmo tempo, uma relação produtiva com as esculturas em argila com as quais começou a trabalhar a partir da década de 1980 e que serão o cerne desta mostra. Anna Maria Maiolino criará, especialmente para a ocasião, uma dezena dessas esculturas em barro modelado no local, as maiores que jamais produziu, com as quais irá povoar o vasto espaço da sala, definindo os percursos do público e levando-o a estabelecer uma forte relação sensorial e poética com a materialidade (em transformação permanente) das peças.
Biografia
Por mais de seis décadas, a prática de Anna Maria Maiolino (Scalea, Itália, 1942) tem incorporado meios diversos — desenho, escultura, gravura, vídeo, instalação, performance e poesia – em constante busca por novas formas de expressão. O corpo, a linguagem, o desejo e a subjetividade são tratados como territórios de experimentação, onde o pessoal se funde com o político e o íntimo se abre ao coletivo. A experiência da migração – do sul da Itália para a Venezuela – desempenha um papel central na sua investigação artística, moldando um pensamento atento às questões de identidade, pertencimento e memória.
A partir da década de 1980, Maiolino passa a explorar intensamente a relação entre gesto e matéria, utilizando materiais como argila, gesso e massas modeláveis. Nas suas mãos, esses materiais registam ações repetitivas e intuitivas, que evocam processos primordiais ligados ao corpo, como alimentar-se ou respirar. Desses gestos emergem não apenas formas, mas também ritmos, falhas e pausas que tornam visíveis o tempo, a fragilidade e a pulsação da vida. A sua produção propõe uma abordagem particular da abstração, marcada por uma organicidade que rompe com convenções formais rígidas e se abre à experiência tátil, afetiva e existencial do mundo. Em 2024, Maiolino recebeu o Leão de Ouro na Bienal de Veneza pelo conjunto da sua obra.